segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

SELOS



Recebi do Cão Chupando Manga esses dois selos lindos! Johnny, obrigada mesmo!






Meus indicados são:

POESES
Dó. Ré. Mi. Fá. Sol. Lá. Si
Outras Andanças
Lactobacilo Morto
Carpe Diem! RAFAEL PUÍME

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

BLOG INTERDITADO (dedicando o espaço para Noêmia Inácio)



Pois então. Deste último ponto crucial na vida dessas dadivosas damas (que já foi aqui postado) até o final da estória, livro. Isso mesmo, LIVRO.

Contarei "tudin" e explicarei a grande dúvida do porque de o defunto estar vivo.

A quem me emocionou estando ao meu lado, continue ao meu lado.

Serei breve... Logo teremos o desfecho das meninas.


"Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras

Ou lançá-los pra fora das janelas

(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)

Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los

Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas

E de mais confusão as prateleiras.

Tropeçavas nos astros desastrada

Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas."

Ca
etano Veloso

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

CONSCIÊNCIA É MUITO CIENTÍFICO




“Money
que é good nóis no have
se nóis hevasse nóis num tava aqui workando
o nosso work é playá”


A médium achou que melhor seria pesquisa. Uma espreitada pra certificar-se que aquela vontade da pistoleira daria em nada, fato simples já constatado por ela, pois que Magnólia era pouco mulher, muito violenta e assassina.

Acreditou que deveria ir até a quinta e ver de perto o desavisado Valdomiro, rapaz formoso e na mira da pistoleira. Tentava desnorteadamente convencer-se de que não era porque a sanguinária lhe encomendara trabalho que o deveria ir fazendo, sem certificar-se. Não. Poderia ela acabar com a vida de um coitado, unindo ele ao tormento de viver ao lado de mulher tão terrível e inescrupulosa como aquela. Foi.

Indumentária brilhante e avermelhada, flor cor de abóbora nos cabelos, lá se foi Aretusa rua afora, incorporada e sorridente, junto a Mariáh, a cigana do além, tomando cada pedacinho galopante do corpo em movimento. Reconhecer a área de trabalho era fundamental desde ontem, quando teve a pistoleira invocando macumba em seu terreiro.

Parou na esquina e, pela primeira vez na sua vida, quis ser transparente, não reconhecida ou notada. Observando, sentiu sua entidade se contorcer voluptuosamente. O infeliz era lindo... O homem era lindo mesmo ou ela achava tudo aquilo porque detestava a hoje cliente? Passou seus mil olhos em volta de todo aquele mundo agonizante de carne e vislumbrou um absurdo de cromossomos, em pares perfeitos de vinte e três, quarenta e seis preciosos diamantes que davam no Olimpo. O rapaz pintava a fachada da mercearia, famigerado e despercebido aos inúmeros erros gramaticais, não vistos por nossa médium quase analfabeta, que, se soubesse um pouco mais da escrita, não teria se importado, já que o deus tinha mil dedos em duas mãos perfeitas e, que faltasse letra, sobrava músculos.

Aretusa ainda tentou endoidecida recuperar-se da vontade, repetindo mentalmente que, o que é dos outros é dos outros e o que é de Magnólia não era de mais ninguém. Mas não se convenceu. Ficaria com os garrotes e com o filé. Encaminhou-se para a mercearia, ajeitando a flor na orelha e negritando o batom vermelho.

Magnólia estava em casa, ouvindo Lulu Santos às vezes e Emílio Santiago também, que abafava a vontade de matar o Lulu. Fez promessa ajoelhada de que não mataria mais naquela vida. Queria esperar de braços abertos por Valdomiro, daria a ele todo o seu rebanho e, de quebra, lhe daria uns seis bezerros dele. De seus olhos jorraram lágrimas. Se não fosse modestamente inteligente, diria que estava sendo chamada para a missa, tão emotiva era aquela hora.

Ufa!!
Vírgula Antenada, 17/01/08

O DESAVISADO


(“... Não dá pé/
Não tem pé, nem cabeça/
Não tem ninguém que mereça...”)


O normal seria que Aretuza começasse o diálogo, já que ela estava sobre proteção vocal da entidade acompanhante, além de ser essa a forma de adiantamento em toda consulta espiritual, fosse em tenda ou em terreiro. Mas Aretuza não tinha voz. Estava diante de Magnólia e, educadamente, queria dar o privilégio para a então pistoleira. E foi justo ela quem iniciou o “tiroteio” da conversa.

– Quanto?
– Depende...
– Quero rápido!
– E o que você quer?
– Morrer...
– Opa! Quando?
– Cuidado... Estou em desatino.
– Quem é o cabra?
– Precisa de nome?
– É macho? Se não, mais caro.
– De olhos fechados.
– Que você me paga?
– Não, que é macho. Tem filhos.
– Então é macho! Um garrote.
– É homem feito, não sou você.
– Garrote. Perguntou quanto...
– De uma vez? Parcelado?
– Comecemos pela dianteira.
– Que é isso? Quero ele inteiro.
– O pagamento. Paga a picanha. Depois...
– Ah... Pago a ti em partes.
– Parte nada aqui não! Em parcelas.
– Pago. Me dá que eu pago.
– Epa! Não te dou nada. Nome...
– Valdomiro
– Da quinta?
– Viu ele na quinta? Onde?
– Não. Da venda!
– Esse.
– Isso!
– Pra sempre?
– Até que a morte...
– Sem morte, Magnólia!
– E eu por acaso estou falando com vivo, Mariáh?
– Ele já é seu, o da quinta.
– Mas quero ele todo dia.
– É seu, pra sempre.
– Só isso?
– Não...
– O que mais?
– O garrote. Me deve.
– Não sou mulher de dever.
– Então, paga! Mas, calma. Como quiser, claro...
– E quero segredo.
– Outro entre nós?
– E você está rodeando Valdomiro?
– Segredo, Magnólia...
– Segredo, Aretuza.
– Sou Mariáh, deixa meu cavalo fora disso!
– É bom a égua ficar fora disso mesmo.
– Só tem uma coisa...
– Não era só uma?
– Agora tem outra.
– O quê?
– Segredo é mais caro.
– Sem problema. Estou cheia de vacas.

E assim, combinadas as duas partes, sem nada partir, apertaram-se as mãos. O coitado do desavisado que atendia pelo nome de Valdomiro, junto com o restante da população, esperava o desfecho e ouviu Geninho com indignação, ao mesmo tempo que os demais, dizer que o encontro já acabara fazia hora e que a Pistoleira esgueirara-se pelos fundos, sem deixar sinal. O padre suspirou aliviado com seu segredo resguardado. O Prefeito e sua dama saíram da casa da vizinha sem despedidas e o povo de Miraverde, dali mesmo, já inventava rumores e boatos, com despeito e expectativa ferida.


Ufa!!
Vírgula Antenada, 03/11/07

APÓCRIFOS - A ISCA E O ANZOL


(“... Diante de um bom motivo/ Que me traga fé/ Que me traga fé.../ Se por alguns/ Segundos eu observar/ E só observar/ A isca e o anzol...”)


Magnólia e Aretuza. Ou vice-versa. Não que a ordem deixasse de priorizar os fatos do encontro mas, os fatores astrológicos, a química quântica e o alfabeto estavam conturbados, assim como qualquer outra relevância.

Aretuza e Magnólia. A primeira nem dormiu. Andou quilômetros dentro de seu quartinho, esperando que o dia amanhecesse. Queria preparar-se, dispor de argumentos certos para os momentos exatos. Ainda não sabia se vestiria a roupa da Cigana Mariáh ou se colocaria aquele jeans e seu chinelo de palha... Resolveu que seria de indumentária. Não! Vai que a pistoleira pensasse que a Cigana já estava morta mesmo e resolvesse cravejar o corpo da médium de balas “doze”? De jeans, Aretuza corria o risco da assassina confessa de tantos casos resolver levar sua alma para junto da Cigana, no além... Resolveu pelo meio termo: vestido florido e nada de brincos de argolas. Mas as chinelas seriam as de palha, fáceis de tirar, caso precisasse correr.

Dormiu sono dos anjos a pistoleira Magnólia, depois de ingerir duas cápsulas de seu medicamento “dez miligramas”. Queria muito estar disposta e encontrar o argumento correto para descrever o porque de marcar aquele encontro com a médium. Antes de engolir num trago só de Campari seus comprimidos, separou sua calça jeans de cintura alta e boca de sino, seu All Star vermelho-sangue e sua camiseta, a de um político que considerava estar ainda vivo por falta de oportunidade de encontro com ela. Em alfa, sentiu o coração aquecido. Uma espécie de consentimento da consciência ao bem que fazia estar experimentando tal sensação desequilibrada, o coração queimando... Adormeceu. Acordou com gosto de arrependimento, mas não teve tempo de recuar. Geninho, o menino de recados dela, estava a gritar na porta, dizendo que a cidade esperava por ambas.

Miraverde não dormiu, salvo as criancinhas e os terminais. A cidade fez novena, vigília, reforço nas portas das casas e muitos ficaram na rodoviária à espera do primeiro ônibus para qualquer outro município. Dona Nona não vendeu muitos pães naquela manhã, nem fazia questão do faturamento matinal. Foi uma das primeiras a instalar-se com banquinho de paus na esquina da rua de Aretuza. Foi-se juntando uma leva de gente nas duas pontas da rua e a vizinha da casa da frente à da médium, cogitavam, estaria vendendo lugares no seu portão. Porém, não houve tal confirmação. Era desencontrada a questão sobre valores de “camarotes” para tal encontro. Ficou estranho foi o Padre e o Prefeito, com comitiva e primeira dama, resolverem visitar a tal vizinha justo naquele dia.

Surge Geninho, orgulhoso e abrindo espaço perante a comunidade ansiosa e ávida no canto da rua. Logo atrás, caminhava Magnólia, devagar e firme, incerta de sua jornada e arrependida da providência. Quando chegou à frente da porta da casa/terreiro de Aretuza, virou-se e encarou o Padre, que lhe fez o sinal da cruz e a abençoou num movimento tão rápido que fora percebido somente por ela, daqueles que igual só havia visto em fotos de enfermeira com dedo indicador nos lábios.

Empurrou a maçaneta e entrou, sem cerimônia, avistando Aretuza em pé, no centro da sala, em meio aos diversos vasos de flores de plástico, rodeada por fotos de si mesma pendurada nas paredes. Cumprimentaram-se sem palavras e, com reverência, a médium moveu seu braço, indicando com a mão uma cadeira, intimando a pistoleira a sentar-se. Logo em seguida, sentou-se em outra cadeira em frente e ficaram olhando-se por uns instantes. Analisaram uma à outra, esperando a iniciativa da outra contrária. Temiam qualquer aparte. Horrorizavam-se com a possibilidade de se partir qualquer coisa ali.

Magnólia estava disposta a relatar o motivo de sua ida. Aretuza continuava aguardando disposição da visitante inesperada. As duas, sem o saber, lembraram-se por um momento quando, juntas, atrás de um tanque de um quintal qualquer, desmascararam o Padre. O ambiente ficou de uma leveza imediata com as lembranças. Quase riram uma para a outra. Magnólia endireitou-se na cadeira, cruzou as pernas e indicou com aquela linguagem corporal que começaria a falar. Aretuza fez o mesmo e colocou-se à disposição para ouvir.


Ufa!!
Vírgula Antenada, 03/11/2007

MAGNÓLIA E SUA DRÁGEA: O CARCEREIRO



(“... Ninguém vai dizer que eu deixei barato (...)
Te dizer bye-bye, até nunca, jamé (...)
Eu quero que vc se Top top top !...”)



Já era rotineiro: o burburinho fazia hora havia começado na Padaria Miraverde. O sol nem tinha despontado, mas os primeiros pães eram os únicos que saíam a contento. O forno estava estragado a anos e queimava os assados da segunda fornada em diante, fosse pão, fosse bolo. Superaquecia e era batata: queimava-os. Por isso, quem gostava de pão, corria.

O nome do estabelecimento foi escolhido por D. Nona, que era orgulhosa de sua originalidade: na cidade de Miraverde, a Panificadora Miraverde era a única. O marido, que já morreu faz tempo, quando vivo lutou incansavelmente anos a fio com sua “Noninha” para, no mínimo, incrementar a placa separando o nome ao meio – Mira Verde – ou fazendo inteligente brincadeira – Mira o verde – pois assim achava que a padaria chamaria mais a atenção dos fregueses. Vai que um dia alguém abrisse concorrência... Foi-se para o purgatório sem conseguir convencer a esposa, que era a dona da primeira e última palavra, desde o dia do casamento.

Magnólia não pagava pães nem leites naquela padaria. Até insistiu algumas vezes, mas D. Nona quase ajoelhou a seus pés pedindo que a pistoleira aceitasse o mimo. Com o Padre dizendo em toda missa o quanto Magnólia era respeitável e temível e que se matasse era com razão, a dona da padaria, muito carola, achou que entendera o recado e passou a não cobrar, para agradar a temida e respeitada sanguinária.

A tirana pistoleira, como de costume, chegou para buscar seu café da manhã e, ao entrar no recinto, todos a olhando, como os argentinos olhavam para Jorge Videla. Aconteceu então uma catástrofe! Um abismo se abriu na frente dos que esperavam na fila e dos que se encontravam encostados no balcão. Geninho ia saindo, olhando para o lado, olhos vidrados em Mocinha, a boazinha da cidade, que, diziam, atendia a todos os homens dali com desmascaramento, todas as noites. Não viu e esbarrou na déspota Magnólia, tão forte que ela quase foi ao chão.

O silêncio reinou de imediato. Ninguém arriscava mexer um membro do corpo e alguns, por precaução, não ousavam sequer respirar. O menino, vencido com a atrocidade do seu descuido, começou mentalmente a rezar um terço, já encomendando sua alma ao Céu: pecando ao olhar ávido para Mocinha, assinou sua sentença. Desnuda de reação, além de endireitar-se, sacudindo-se como que querendo colocar ossos soltos do seu corpo franzino no lugar, a pistoleira, com fúria contida no olhar, disparou olhares em todas as direções e parou no culpado desastrado, fixando-se nele.

Com voz calma, pausada, porém alta para que fosse bem ouvida, e com uma vagarosidade que nunca ninguém conhecia nela ao proferir alguma frase, disse que estava nada possessa. Sentia-se tranqüila demais por causa de um medicamento novo de 10 miligramas que o médico da Capital receitara e por isso pouparia a vida do menino. Lentamente, dirigiu-se aos seus pãezinhos já embrulhados e, passando ao lado de Geninho, que ainda rezava o mesmo terço, por economia, agora em agradecimento pela vida readquirida, Magnólia cruzou olhar com o menino que nela viu tanta raiva, ódio e amargura vencidos dentro de si, presos dentro dela, latejando sem ter por onde sair, além de uma tristeza facínora, que não teve dúvida: o nome do tal remédio que ela estava tomando só podia ser carcereiro. Ele já estava na calçada, ganhando a rua, mas ainda pôde ouvir Mocinha se aproveitar do estado lastimável de cruel falsa calma da pistoleira, pedindo conselho sobre como segurar um homem só para ela, pelo resto da vida, sendo só dela e de nenhuma outra. E o menino teve maior certeza de que um dia escreveria sobre essa mulher pistoleira, quando ela respondeu, sem olhar para Mocinha: “Mata um e joga debaixo da sua cama.”.


Ufa!!!
Vírgula Antenada, 10/10/07

ARETUZA E A RAZÃO DE SEU SUCESSO




(“... Eu vou sabotar, você vai se azarar/
o que eu não ganho eu leso/
ninguém vai me gozar não, jamais/

lari... lari... lari...”)


Era auto-ajuda! Isso. Um dom inegável e invejável, natural em Aretuza, apesar dela não ter idéia do que se tratava e saber ler ligeiro e firme somente o próprio nome (ela não era lá alfabetizada de fato). Mas era excelente em Marketing Pessoal, usava inteligentemente e com destreza a superioridade emocional e esperteza de que dispunha para se ajudar. Nunca arriscava, só confiava nela. E se fazia. Aproveitava o preparo para proteger-se, já sendo conhecida até nos arredores de Miraverde e procurada por Madames da Capital.

Para se distrair, quando tinha tempo, ia na Padaria Miraverde comprar seus pães, mas só depois que uma de suas meninas (havia quatro, que nem eram parentes, mas moravam com ela para ajudar a médium) avisava que Magnólia já não estava por lá. No caminho, parava em frente a algum letreiro e ficava um bom tempo admirando, intrigada e concentrada.

Para não desperdiçar os genes, passou seu dom admirável a sua filha, que, por “insistência repugnante” do Serviço Social do Município, estudou um pouco e gabou-se bastante do dia em que conseguiu ler a bula inteira de um xarope natural em duas rápidas horas. A perfeição do DNA recebido da mãe fez dela uma Relações Públicas de primeira. Era perfeita a dupla, diria Jean-Paul Sartre, só se separando quando a filha se ausentava nos finais de semana, uma vez que, depois de um despacho, conseguiu ótimo emprego em um restaurante na Capital. Fora isso, lá estavam as duas, que se tornavam trio de certo desconcertante ângulo, o que intrigava pelos moldes do contexto. É que tinha a Cigana Mariah (leia-se Mariá), que rogava praga terrível naquele que pronunciasse errado seu nome e a ofendesse chamando-a de Maria. Aretuza era um “cavalo” satisfeito, sua Cigana era poderosíssima! Para se ter idéia, saía usando o corpo de Aretuza para desfilar pelas ruas da cidade à tarde, dando conselhos e apontando quem estava com encosto, convidando para ir lá no terreiro e fazer trabalhinho simples. Assustador era quando passava olhando para baixo, mas mostrava seu poder descrevendo com altivez na voz o que estava escrito em alguma placa ou faixa, até em letreiros, sem nem olhar. Mariah “baixava” perto da hora do almoço e só se ia, sabe-se lá para onde, à tardinha. Se o espírito da cigana desconfiasse de visita masculina para Aretuza pela noite, aí não ia. Ficava e nada a tirava do corpo da médium, sobrando a ela apenas o outro dia cedo, o gosto e o cheiro da fartança.

Era difícil falar com Aretuza, quase o tempo todo ornamentada e servindo de hospedeira ao espírito da Cigana. Mesmo com as ajudantes que se sentiam em casa sempre no terreiro, ali que era o terreiro mesmo da casa da médium, com tanque, pomar e muitas galinhas pretas, o lugar era de todos, desde que soubessem que o espaço tinha dona. A dupla, desta vez médium e entidade, gostava de ir pessoalmente buscar seus cigarros, conhaques e cidras nos poucos comércios, motivo que não escondia e de que se orgulhava, já cansada de dizer aos quatro cantos que os donos dos bares e armazéns adoravam lhe presentear. Tudo começou quando o Padre, em todas as missas, repetia saber que o catolicismo era a única verdade salvadora de almas, mas não podia negar a Divina luz e a seriedade mediúnica de Aretuza. Os comerciantes então chegaram a esquecer algumas dívidas anotadas da mulher temida.

Eis que a Cigana tonteou e a médium quase voltou a si de tão pálido seu rosto revelou-se diante de notícia chegada através do moleque Geninho. "Mariáh", bebendo seu centésimo gole do dia, depara com o menino aproximando-se resfolegado e com voz miúda dizendo que a pistoleira Magnólia mandou marcar consulta para o outro dia. Carecia de urgência, problemas de foro íntimo.

A cigana aquele dia foi-se mais cedo e Aretuza não dormiu, preparando estratégia de guerra.


Ufa!!!
Vírgula Antenada, 10/10/07