(“... Ninguém vai dizer que eu deixei barato (...)
Te dizer bye-bye, até nunca, jamé (...)
Eu quero que vc se Top top top !...”)
Já era rotineiro: o burburinho fazia hora havia começado na Padaria Miraverde. O sol nem tinha despontado, mas os primeiros pães eram os únicos que saíam a contento. O forno estava estragado a anos e queimava os assados da segunda fornada em diante, fosse pão, fosse bolo. Superaquecia e era batata: queimava-os. Por isso, quem gostava de pão, corria.
O nome do estabelecimento foi escolhido por D. Nona, que era orgulhosa de sua originalidade: na cidade de Miraverde, a Panificadora Miraverde era a única. O marido, que já morreu faz tempo, quando vivo lutou incansavelmente anos a fio com sua “Noninha” para, no mínimo, incrementar a placa separando o nome ao meio – Mira Verde – ou fazendo inteligente brincadeira – Mira o verde – pois assim achava que a padaria chamaria mais a atenção dos fregueses. Vai que um dia alguém abrisse concorrência... Foi-se para o purgatório sem conseguir convencer a esposa, que era a dona da primeira e última palavra, desde o dia do casamento.
Magnólia não pagava pães nem leites naquela padaria. Até insistiu algumas vezes, mas D. Nona quase ajoelhou a seus pés pedindo que a pistoleira aceitasse o mimo. Com o Padre dizendo em toda missa o quanto Magnólia era respeitável e temível e que se matasse era com razão, a dona da padaria, muito carola, achou que entendera o recado e passou a não cobrar, para agradar a temida e respeitada sanguinária.
A tirana pistoleira, como de costume, chegou para buscar seu café da manhã e, ao entrar no recinto, todos a olhando, como os argentinos olhavam para Jorge Videla. Aconteceu então uma catástrofe! Um abismo se abriu na frente dos que esperavam na fila e dos que se encontravam encostados no balcão. Geninho ia saindo, olhando para o lado, olhos vidrados em Mocinha, a boazinha da cidade, que, diziam, atendia a todos os homens dali com desmascaramento, todas as noites. Não viu e esbarrou na déspota Magnólia, tão forte que ela quase foi ao chão.
O silêncio reinou de imediato. Ninguém arriscava mexer um membro do corpo e alguns, por precaução, não ousavam sequer respirar. O menino, vencido com a atrocidade do seu descuido, começou mentalmente a rezar um terço, já encomendando sua alma ao Céu: pecando ao olhar ávido para Mocinha, assinou sua sentença. Desnuda de reação, além de endireitar-se, sacudindo-se como que querendo colocar ossos soltos do seu corpo franzino no lugar, a pistoleira, com fúria contida no olhar, disparou olhares em todas as direções e parou no culpado desastrado, fixando-se nele.
Com voz calma, pausada, porém alta para que fosse bem ouvida, e com uma vagarosidade que nunca ninguém conhecia nela ao proferir alguma frase, disse que estava nada possessa. Sentia-se tranqüila demais por causa de um medicamento novo de 10 miligramas que o médico da Capital receitara e por isso pouparia a vida do menino. Lentamente, dirigiu-se aos seus pãezinhos já embrulhados e, passando ao lado de Geninho, que ainda rezava o mesmo terço, por economia, agora em agradecimento pela vida readquirida, Magnólia cruzou olhar com o menino que nela viu tanta raiva, ódio e amargura vencidos dentro de si, presos dentro dela, latejando sem ter por onde sair, além de uma tristeza facínora, que não teve dúvida: o nome do tal remédio que ela estava tomando só podia ser carcereiro. Ele já estava na calçada, ganhando a rua, mas ainda pôde ouvir Mocinha se aproveitar do estado lastimável de cruel falsa calma da pistoleira, pedindo conselho sobre como segurar um homem só para ela, pelo resto da vida, sendo só dela e de nenhuma outra. E o menino teve maior certeza de que um dia escreveria sobre essa mulher pistoleira, quando ela respondeu, sem olhar para Mocinha: “Mata um e joga debaixo da sua cama.”.
Ufa!!!
Vírgula Antenada, 10/10/07